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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Primavera que chega



A inclinação do sol vai marcando outras sombras; 
e os habitantes da mata, essas criaturas naturais 
que ainda circulam pelo ar e pelo chão, 
começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, 
nesse mundo confidencial das raízes, 
— e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes
e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes 
e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. 
Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar 
as árias tradicionais de sua nação. 
Pequenas borboletas brancas e amarelas 
apressam-se pelos ares, 
— e certamente conversam: 
mas tão baixinho que não se entende.

(Cecília Meireles)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Quero um dia pra chorar



Quero um dia para chorar.
Mas a vida vai tão depressa!
Não é preciso deixar contida a tristeza,
para que a vida, que acaba quando mal começa,
tenha tempo de se acabar.
(...)
Não quero a esperança partida, nem nada de quanto regressa.
Quero um dia para chorar.
Quero um dia para chorar.
Dia de desprender-me dessa aventura mal entendida
sobre os espelhos sem saída em que jaz a minha face impressa.
Chorar sem protesto.
Chorar.


(Cecília Meireles)

Triste, porém muito belo...


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A flor



A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

(Cecília Meireles)

domingo, 21 de agosto de 2011

Rua dos rostos perdidos




Este vento não leva apenas os chapéus,
estas plumas, estas sedas:
este vento leva todos os rostos,
muito mais depressa.


Nossas vozes já estao longe,
e como se pode conversar,
como podem conversar estes passantes
decapitados pelo vento?

Não, não podemos segurar o nosso rosto:
as mãos encontram o ar,
a sucessão das datas,
a sombra das fugas, impalpável.

Quando voltares por aqui,
saberás que teus olhos
não se fundiram em lagrimas, não,
mas em tempo.

De muito longe avisto a nossa passagem
nesta rua, nesta tarde, neste outono,
nesta cidade, neste mundo, neste dia.
(Não leias o nome da rua, - não leias!)

Conta as tuas historias de amor
como quem estivesse gravando,
vagaroso, um fiel diamante.

E tudo fosse eterno e imóvel.

(Cecília Meireles)


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O que é preciso (não) esquecer


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome,
o som da nossa voz,
o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.


(Cecilia Meireles)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Primavera



A primavera chegará, 
mesmo que ninguém mais saiba seu nome, 
nem acredite no calendário, 
nem possua jardim para recebê-la. 

(Cecília Meireles)


Lindo... lindo... lindo...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vôo


Alheias e nossas as palavras voam. 
Bando de borboletas multicores, as palavras voam 
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, 
as palavras voam. 
Voam as palavras como águias imensas. 
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, 
em redor de nós as palavras voam. 


E às vezes pousam.


(Cecília Meireles)

Cecília Meireles e Roseana Murray: duas poetisas que
 me encantam com o tom fluido e sereno 
- e ao mesmo tempo forte e intenso - 
com que falam da natureza, da vida, da humanidade, da palavra... 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Aprender a olhar



Houve um tempo em que minha janela se abria 
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. 
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. 
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, 
e o jardim parecia morto. 


Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, 
e, em silêncio, ia atirando com a mão 
umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual,
 para que o jardim não morresse. 

E eu olhava para as plantas, para o homem, 
para as gotas de água que caíam de seus dedos magros 
e meu coração ficava completamente feliz. 

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. 
Outras vezes encontro nuvens espessas. 
Avisto crianças que vão para a escola. 
Pardais que pulam pelo muro. 
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. 
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. 
Marimbondos que sempre me parecem 
personagens de Lope de Vega. 
Ás vezes, um galo canta. 
Às vezes, um avião passa. 

Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. 
E eu me sinto completamente feliz. 

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, 
que estão diante de cada janela, 
uns dizem que essas coisas não existem, 
outros que só existem diante das minhas janelas, 
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, 
para poder vê-las assim. 

(Cecília Meireles)

(Este texto de Cecília dedico à minha amiga Ell, 
que com toda a sua maturidade - 85 anos-
que me ensinou a "olhar e ver"... Amo-te muito, amiga)


domingo, 3 de julho de 2011

Começo do dia



Este é o começo do dia.

Vemos tudo o que já foi visto,

alguma coisa não mais se verá.

(Cecilia Meireles)

sábado, 2 de julho de 2011

Voltar inteira

 Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.  Cecilia Meireles


Aprendi com a primavera; 
a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.

Cecilia Meireles