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domingo, 23 de outubro de 2011

Vai


“Se tiver que ir, vai. 
O que fica para trás, não sendo mentira, não racha, 
não rompe, não cai. Ninguém tira. 
Já que vai, segue se depurando pelo trajeto, 
para desembarcar passado a limpo, 
sem máscara, sem nada, sem nenhum desafeto. 
Quando chegar, sobe ao ponto mais alto do lugar, 
onde a encosta do mundo faz a curva mais pendente. 
E então acena. 
De onde estiver, 
quero enxergar esse momento 
em que você vai constatar 
que a vida vale grandemente a pena.”

(Flora Figueiredo)



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Coisas leves


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...



(Mário Quintana)




domingo, 16 de outubro de 2011

Elegância


Não é lendo a Vogue que você se tornará chique, pode apostar. 
Nem precisa tirar o seu cartão de crédito do bolso 
pra mostrar que pode comprar tudo. 
Algumas coisas vêm de dentro pra fora. 
Elegante é aquele que não joga na cara o que fez por você ontem. 
É aquele que tem o coração livre de impurezas. 
Que guarda segredos. Que deixa o orgulho de lado. 
Que olha nos olhos sem se sentir acuado. 
Que não fala mal hoje e amanhã está dando tapinha nas costas. 
Elegante é quem diz o que sente apenas quando sente. 
Não existe nada mais deselegante 
do que falar “eu também” só pra ser educado. 
Se gosta, gosta. Se não gosta, não gosta. 
Seja claro e direto, afinal, 
a sinceridade é irmã gêmea da elegância.

(Clarissa Corrêa)





sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Adoecer


Quantas vezes abandonamos nossa dor no sofá, vadia, assistindo TV? 
Quantas vezes permitimos que ela fique o dia inteiro dormindo, 
lembrando bobagens? 
Nossa dor sozinha, sem emprego, sem fazer nada, desejando morrer no escuro. 
Nossa dor comendo às nossas custas, 
terminando com os nervos, o casamento, as amizades.

Dor é feita para trabalhar, senão adoecemos no lugar dela.

(Fabricio Carpinejar)


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ainda bem que a gente se jogou



A gente tem uma história que é só nossa, 
um amor que é só nosso, 
uma vida que é só nossa, 
uma família que é só nossa. 
Tudo nosso. 

E com você eu descobri que 
sempre posso ir mais além. 
Você me mostra umas partes que eu não conhecia. 
Me mostra uma força que eu não sabia que tinha. 
Um jeito maduro e ao mesmo tempo infantil 
de continuar vendo a vida. 

Me desarma com tanto bom humor. 
Me mostra coisas que não sabia. 
Me puxa para a realidade, 
pois nem só de sonho se vive. 

Existe uma troca bonita e, hoje, mais madura. 

É que já faz mil dias, amor. 
Mil dias que a gente se encontrou 
e nunca mais saiu de perto um do outro. 
Mil dias que ouvi o que você disse 
e me atirei do precipício. 
Ainda bem que a gente se jogou. 

Ainda bem que você esperou por mim. 

E eu por você.

(Clarissa Corrêa)






Hoje faz 365 dias que eu e meu marido


oficializamos a nossa história de perseverante amor.





domingo, 4 de setembro de 2011

Dia de Faxina



Estava precisando fazer uma faxina em mim...
e fiz : abrindo o armário.
Assim como jogar alguns pensamentos indesejados fora,
lavar algumas essências que andam meio que enferrujadas,
pois já não brilhavam.

Tirei do fundo das gavetas
lembranças que não uso e não quero mais.
Joguei fora alguns sonhos, algumas ilusões.
Papéis de presente que nunca usei,
sorrisos que nunca darei,
joguei fora a raiva e o rancor
das flores murchas que estavam
dentro de um livro que não li.
Olhei para meus sorrisos futuros
e minhas alegrias pretendidas,
e as coloquei num cantinho,
bem arrumadinhas.
Fiquei sem paciência,
tirei tudo de dentro do armário
e fui jogando no chão:
paixões escondidas, desejos reprimidos,
palavras horríveis que nunca queria ter dito,
mágoas de um amigo,
lembranças de um dia triste,
mas, havia lá outras coisas e belas!!!

Um passarinho cantando na minha janela...
aquela lua cor de prata que vi um
dia vi na praia,o por do sol nas montanhas...
Fui me encantando e me distraindo;
olhando para cada uma daquelas lembranças.
Sentei no chão,
para poder fazer minhas escolhas.
Joguei direto no saco de lixo
os restos de um amor que me magoou.
Peguei as palavras de raiva e de dor
que estavam na prateleira de cima,
pois, quase não as uso e
também joguei fora no mesmo instante!
Outras coisas que ainda me magoam,
coloquei num canto
para depois ver o que faria com elas.
Se as esquecia lá mesmo
ou se mandava para o lixão.

Aí, fui naquele cantinho,
bem naquela gaveta
que a gente guarda tudo o que é mais importante:
o amor, a alegria, os sorrisos,
(...)fé
para os momentos que mais precisamos,
e sabe o que descobri ?

Que tinha um jóia lá, toda embrulhadinha,
tão rara e preciosa,
talvez o maior bem que possua.
Eu não a usava há muito tempo.
Nem sabia que a tinha mais,
tinha me esquecido.
Mas, ela estava lá
e quando eu a olhei,
ela brilhou para mim,
como sempre o fizera.


Peguei-a entre os dedos e fiquei apreciando.
Assim, entre embevecida e encantada.

Cuidei dela com muito carinho,
despejei meu amor por entre suas frestas
e não deixei de usá-la mais.
Agora mesmo eu a estou usando
para falar com você.

(Rosy Beltrão)



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Quero um dia pra chorar



Quero um dia para chorar.
Mas a vida vai tão depressa!
Não é preciso deixar contida a tristeza,
para que a vida, que acaba quando mal começa,
tenha tempo de se acabar.
(...)
Não quero a esperança partida, nem nada de quanto regressa.
Quero um dia para chorar.
Quero um dia para chorar.
Dia de desprender-me dessa aventura mal entendida
sobre os espelhos sem saída em que jaz a minha face impressa.
Chorar sem protesto.
Chorar.


(Cecília Meireles)

Triste, porém muito belo...


terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Botão de Acender




Pois que a vida é assim: aperta-se o botão e a vida se acende. 

Só ela não sabia qual era o botão de acender.

(Clarice Lispector)

Um quê de ternura



Havia em suas maneiras suaves um quê de tanta ternura 
que nós, às vezes, a julgávamos nossa mãe.

Sua voz era doce, dessas vozes que nunca se alteram 
e que mais doces se tornam quando fazem alguma censura.


(Viriato Corrêa)

domingo, 28 de agosto de 2011

Hospedeiro de si mesmo




Dentro de mim há pensamentos demais, 
o que torna tudo meio caótico, 
mas tenho tentado dar uma arrumada nessas ideias 
e manter cada uma em sua gaveta. 
Há também sentimentos variados, 
mas de forma alguma vou expulsá-los, 
deixo que circulem à vontade por esse meu corpo que lhes serve de ringue, 
já que eles às vezes brigam uns com os outros.

Dentro de mim é sempre verão e toca música o tempo inteiro, 
mantenho uma satisfação secreta 
que precisa se manter secreta para não passar por boba. 
Há crianças e adultos dentro de mim, todos da mesma idade. 

Aqui dentro existe uma praia e uma montanha coladas uma na outra, 
parece até Rio de Janeiro, só que os tiroteios são feitos com bala de festim. 

Dentro de mim estão muitas lágrimas que não foram choradas para fora 
e muitos sorrisos que, de tão íntimos, também guardei. 

Dentro de mim são produzidas algumas cenas sofisticadas 
e também roteiros de filme B. 
Um universo movimentado e contraditório: 
como não gostar de viver aqui dentro?

E você, tem sido um bom hospedeiro de si mesmo?



(Martha Medeiros)


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sonhos




quebre a cara
quebre a regra

canse o corpo
dome o tempo
dobre a noite
rompa as madrugadas

mas não deixe quebrar
nunca
a casca que protege
os teus sonhos
de menino

(Ademir Antonio Bacca)


Sorry?

Encontrei neste texto de Clarissa, um desabafo tão humano, 
tão "parecido com  todos nós", que resolvi postar.
Vejam, que texto maravilhoso:





A gente deve olhar para a própria vida e para os nossos erros 
antes de sair por aí dizendo coisas inacreditáveis sobre os outros. 
Por favor, me respeite. 


Nem sempre eu me respeitei. 
Muitas vezes me passei a perna, puxei meu próprio tapete, 
esqueci de mim e de tudo que eu queria, me maltratei. 
Muitas vezes me machuquei de propósito, 
me fiz sofrer gratuitamente. 
E me arrependo. Me arrependo, sim. 


Me arrependo, mesmo. 

Já me pedi desculpa, já me perdoei, 
(...) 
não adianta a gente bater com a cabeça na parede e se ferir,
a gente tem que se perdoar. 
Então, me perdoei.



Posso pedir uma coisa para você? 
Me perdoe também. 
Desculpa se às vezes falo sem pensar, 
se vomito as coisas de uma forma boba, 
se sou criançola, mimada e estúpida, 
se sou tão cabeça-dura a ponto de ficar cegueta. 

Desculpa se às vezes fico surtada e emburrada. 
Desculpa se meu orgulho é um dos meus piores defeitos. 
Desculpa se tenho um lado crítico bem forte. 
(...) 
Desculpa se nem sempre eu sou doce. 
Desculpa se muitas vezes eu faço birra 
como se tivesse 5 anos de idade. 
Desculpa se eu não sou uma pessoa tão boa assim. 

Desculpa, desculpa mesmo. 
(...)
Desculpa por ter os defeitos que os seres humanos têm 
- e eu não gosto.


Trecho de: "Sobre a minha síndrome"


(Clarissa Corrêa)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Mesa reservada




Um  texto muito tocante de Carpinejar. 
Vale a pena lê-lo...




Sandrinha ama meu filho Vicente, nove anos. Ela coordena a brigada de atendentes no restaurante Suzanne Marie, no Moinhos de Vento.

Amar meu filho é me amar duas vezes.

Não consigo ser pai com Sandrinha perto. Ela não deixa faltar nada. É o menino se acomodar na cadeira que já está cochichando planos mirabolantes em seu ouvido, por certo encomendando pratos especiais fora do cardápio, imagino que seja ovo estrelado em cima do arroz soltinho, bife e batata frita, algo irresistível para uma criança.

Molecagem de amigos, que aumenta porque não escuto a conversa. Identifico que o assunto é proibido pelas risadas e olhos chineses dos dois.

Com Sandrinha perto, Vicente vive um domingo eterno, do jeito que sonhara no ventre.

Eu brinco que ela leva meu filho em sua bandeja para cá e para lá, que mima demais o guri, que estraga a educação com excessiva ternura.

Na aparência, reclamo e faço cena; secretamente, admiro seus cuidados, sei que o amor conserva, não estraga ninguém.

De modo egoísta, a família torce para que não tire férias. Com ela longe, as fadas desaparecem, Debussy se cala, o suco da filha Mariana não vem, meu café enfraquece, o chá da esposa dorme no bolso do garçom.

Sandrinha é insubstituível. Uma monarca da simplicidade.

Tão aplicada e cuidadosa, que nunca a vi de cabelos soltos, sempre de coque. Deve ser bailarina de uma caixinha de música. Dança sem parar no espelho de nossos olhos, num vaivém incessante, destacando-se pela elegância – a sapatilha rosa da boca, as palavras na ponta dos pés, o pescoço erguido mesmo ao apanhar talheres do chão.

Vicente dá corda, eu dou corda, não queremos perdê-la de vista: exemplifica a delicadeza atenta do lugar, a comida curativa.

Mas Sandrinha hoje não poderá vir. Nem amanhã. Nem depois de amanhã. Vai demorar a voltar.

Recupera-se na UTI do Hospital de Gravataí. Foi vítima de um assalto ao descer do ônibus no sábado, no retorno do trabalho. Abordada por um ladrão, entrou em pânico, saiu correndo e caiu na rua. O assaltante atirou friamente em suas costas. Atirou quando ela estava deitada, indefesa, entregue.

Talvez ela não ande mais. Agora eu e Vicente iremos carregá-la no colo.

É hora de servi-la. E ainda explicaremos para Sandrinha que ela é magra, leve, não cansa os braços.

(Carpinejar)





terça-feira, 23 de agosto de 2011

Uma palavra basta



Não gaste duas palavras se uma única basta.

(Provérbio àrabe)


Partida


Hoje arrumo as flores
em cima da mesa
as frutas na memória
quero um dia bem simples
alguma luz pousada
na superfície da água 

hoje chamo para mim
amorosas palavras
que vivam um dia
perto do meu coração
que corram pela casa
com sua mistura de mel e espanto

alguém parte com um ruído seco
alguém sempre está partindo

(Roseana Murray)


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Amor oculto




Na multidão busco meu amor
ainda anônimo

seu rosto que não conheço

entre tantos rostos
a voz que acenderá estrelas
e que ainda é uma voz qualquer

Busco meu amor oculto
como em segredo entre as folhagens
e meu coração dispara
a cada indício do seu rastro

Busco o meu amor como a chave
de um castelo
esquecida há milênio
em algum lugar obscuro
do mundo

Busco meu amor desconhecido
como quem busca algodão
num campo imenso
para se forrar por dentro.


(Roseana Murray)

Na minha adolescência, eu tinha mania de ficar olhando
das janelas dos ônibus para a multidão que forrava as ruas da cidade e me perguntar qual daqueles desconhecidos poderia ser o amor da minha vida.


Para minha surpresa, o meu grande amor não estava no meio daquela multidão.
Estava bem distante e viria de longe me encontrar por acaso.

Viria do lado de dentro do ônibus.