sábado, 30 de julho de 2011

Esconderijo



Tem dias que é preciso vestir a roupa de adulto e atravessar a rua segurando bem forte a mão da vida. Não dá para se esconder ou fugir. Defino assim: crianças fogem, adultos encaram. Criança foge do escuro e acende a luz. Foge do medo e pula no colo da mãe. Foge do castigo e mostra a língua para o irmão, implicando. Adulto tem que encarar, a gente aprende desde cedo que fugir é feio, ruim. Fugir é infantil. Por isso, todo adulto é forçado a aguentar, dormir, acordar e continuar.

Acho que todo mundo precisa de esconderijo. Não fujo, mas vezenquando me escondo porque preciso da minha paz, preciso ler minhas frases silenciosas. Palavra pra mim é a coisa mais séria e bonita que existe. Preciso delas ao meu lado, sublinhadas. Tenho esse lado infantil de correr para o colo da mãe, acender a luz do corredor e não caminhar no escuro. Gosto da luz, do mundo claro. Em compensação, amo noites e estrelas.

Trecho de "Meu lado que sente frio"


(Clarissa Corrêa)







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