sábado, 23 de julho de 2011

Abandono (Flora Figueiredo)


A vida ficou de repente
apática e desinteressada,
como se pretendesse descer na próxima parada.

Abafou os sons que costumava ouvir,
com medo de sentir saudade.

Baixou os toldos sobre a claridade,
para que o brilho do dia
não arranhasse a solidão.

Preferia permanecer quieta e sombria.

Guardou o açucar como se quisesse
impedir o doce
de mesclar o fel que, porventura , houvesse.

Sensações e sentimentos devidamente amordaçados,
rabiscou no papel seu breve recado:

"Saí para almoço.
Pretendo voltar, não sei se posso.
Seja, por favor, condescendente.
Quando o amor não está,
é costume da vida suspender o expediente."


(Flora Figueiredo)





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