quarta-feira, 6 de julho de 2011

Sou todo saudade



A saudade é uma separação que inventou o casamento.

Não é reencontrando minha mulher 
que desfaço o mal-estar de ter estado longe. 
Ainda que seja uma hora, um dia, uma semana.

Sentir saudade agora é sentir as saudades 
de minha vida com ela.

Saudade é uma experiência que não termina de terminar.

Com a saudade, não sinto falta dela, mas do que sou com ela.

Saudade é vaidade. 
Lamento a própria ausência, 
apesar de parecer preocupado com a ausência dela.

Saudade é o luto do meu pensamento, 
a morte do meu pensamento. 
É nunca mais pensar como solteiro; 
é pensar como casado daqui por diante. 
Jurarei que minha risada é mais extravagante em sua companhia, 
de que sou mais elegante em seus ombros, 
de que o mundo gosta de nos ver abraçados.

Saudade é não se bastar mais, 
é depender de alguém para continuar sendo. 
Depender de alguém até para deixar de ser.

Com a saudade, finjo que me preocupo com minha amada, mas é 
apenas um jeito de me preocupar comigo. 
Ela não está mais perto para me melhorar, me antecipar.

Não é que posso perdê-la, 
eu é que posso me perder longe do que já fui com ela.

Saudade é uma soma daquilo que não somos 
quando o outro se afasta 
e daquilo que somos quando o outro está junto. 
É a certeza de nossa insuficiência. 
Representa um desfalque da personalidade. 
Passo a me dar conta de que somente existo para me exibir à ela. Isolado, tenho a sensação de engano, de boicote, 
de que não nasci inteiro, de que não morrerei inteiro. 
Minhas palavras ficam tímidas; meu rosto, desafinado.

Saudade é imaginar por dois não sendo mais nenhum. 
É agir solitário no plural.

Não é uma generosidade, mas seu contrário: 
um profundo egoísmo; 
não queremos que amada se distancie 
para que ela não descubra nossa desimportância. 
No fundo, é o medo de que a nossa companhia não sinta saudade. 
O receio do fim. A primeira histeria. 
A primeira crise de nervosismo.

Saudade é uma covardia corajosa, 
uma ansiedade cheia de paciência, 
uma preocupação despreocupada. 
É se ofender elogiando outro, é se elogiar ofendendo o outro.

Saudade é uma antecipação do abandono. 
Uma despedida provisória que dói igual 
a um desenlace definitivo. 
É um aceno que não entrega a mão ao ar, 
um cumprimento que não fecha os dedos.

A saudade é acordar na sexta como se fosse sábado. 
É vestir nossa roupa predileta para permanecer em casa. 
É arrumar a cama para dormir no sofá.

A saudade surge antes da saudade. 
Definimos dentro do fato qual será a 
lembrança de que sentiremos saudade. 
Sentimos saudade no meio da experiência.

Saudade é uma alegria entristecendo.

Porque toda alegria só será definitiva depois da saudade. 

Depois da tristeza.

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