domingo, 10 de julho de 2011

Carpinejar e seu amigo Iragí





Quando entrei na escola, meu amigo inseparável era o Iraji. Eu tinha certeza de que ele seria jogador de futebol. Barbarizava os meninos das 4ª e 5ª séries com balãozinho, janelinha e meia-lua.

Cabelos cacheados, baixinho, franzino: tímido fora de campo, destemido com a bola. Tonteava os adversários com ioiô e elástico. Produziu os lances mais bonitos e plásticos da cancha de concreto da Escola Imperatriz Leopoldina. Como companheiro de ataque, ele me tornou melhor do que realmente sou. Algo como Careca ao lado do Maradona no Nápoli.

A turma o reverenciava como Negrinho do Pastoreio, um capoeirista do meio-campo. Ainda recordo do cheiro do seu uniforme, uma mistura de suor, dois ônibus e cacetinho com manteiga.

Conhecia seu percurso. Nossa aula começava às 13h30min, mas ele estava na esquina às 11h30min, sentado no muro do outro lado da calçada (visionário, antecipou em uma década 

a necessidade de um guardinha de rua).

Eu o enxergava antecipado no horário e o convidava para almoçar. Antes convencia minha mãe, dobrava sua angústia com imprevistos. Ele rebatia que não, que estava satisfeito. Deixava o colega paradinho em seu posto de observação, com a mochila encardida debaixo do braço. Voltava em seguida e perguntava se ele não queria apenas beliscar alguma coisa. 

Ele aceitava e comia dois pratos.

Dia a dia, repetíamos a cena. Reproduzíamos a igual negociação sem tirar nem pôr. Ele chegava antes, eu convidava, não aceitava, reconvidava e vinha louco de apetite. Não quis constrangê-lo com a mudança de costume, ele tampouco 

fez questão de assumir um lugar fixo na mesa.

Nossa convivência durou até que ele rodou de ano. Depois, foi desaparecendo para aquilo que acreditava que seria o sucesso, já que um olheiro passou na escola para vê-lo atuar e ficou assombrado. Saiu do colégio na 5ª série para atuar no infantil do Inter e estudar no contraturno.

A vida e o kichute viviam amarrados em suas canelas.

Na despedida, dei uma camisa do colorado. Ele me abraçou fervorosamente, ainda recordo do cheiro, uma mistura de suor, dois ônibus e cacetinho com geleia. Prometeu que faria o primeiro gol profissional para mim. Eu me guardei na expectativa.

Iraji, Iraji...

Nunca tinha visto alguém vocacionado ao futebol daquele jeito. Conseguia embaixadinha com pedras, pinhas e laranjas. Cabeceava bolinhas de tênis com precisão. 

Seu toque de calcanhar encobria o goleiro.

Cresci, amadureci, formei família,

e não o reencontrei no estádio ou na rua.

Tive notícia de que fraturou a perna numa dividida na categoria de base e não pôde continuar no clube. Logo ele, que depositou sua escolaridade no esporte.

Não digeri as fintas do destino, a crueldade com seu talento.

Depois tive notícia de que trabalhava 

como porteiro no bairro Sarandi.

E descubro que, desde a infância, sua verdadeira profissão é esperar, como a de todos nós. Ele continua me esperando. Continua esperando ser chamado, notado, percebido, amado.

Agora dentro de um prédio.
Ponho mais um prato na mesa, vá que ele mude de ideia e sinta fome da minha amizade. 

(Fabrício Carpinejar)





IRAJI RESPONDE (E DESCUBRO QUE É IRAGÍ)


"Boa tarde!

As verdadeiras amizades são assim: você acha que termina mas quando são verdadeiras, elas voltam, às vezes mais fortes do que antes. O primeiro tijolinho foi posto lá na quadra de areão, depois de concreto do Leopoldina.

Sempre fui colorado. Porém, aquela camisa do Inter que uma vez você me deu, lembro até hoje. Na época o número na camisa era costurado, o 8, é claro do Príncipe Jajá, 

como era chamado o Jair.

Nossa amizade nunca foi esquecida, infância com dificuldades, tudo bem, meus kichutes driblavam com maestria tudo isso.

A felicidade era encontrar todos os dias, você, meu amigo CABELUDO, loiro cabeludo, 

ou meu parceiro Careca do Nápoli do Leopoldina.

Esperar sim, por que não? Para nascermos, demoramos 9 meses. A minha espera demorou. Mas fui notado, homenageado na página 2 da Zero Hora. Pelo amigo, acreditem senhores, bom de bola. Acreditem, bom de bola. 

Quando as amizades realmente são de coração, 
esperar não cansa. 


Tarda para aumentar a saudade.

Deixo aqui um grande abraço para meu amigo que lembro com carinho, e admiração, pelos momentos vividos na minha infância.

Obrigado, Fabrício.

abraços
Iragi ou Maradona (rsrsrs)"
 


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